O que parece justo no dinheiro de um casal raramente nasce no casal. Cada um chega com uma régua aprendida em casa sobre o que é dividir direito, e com uma conta antiga, aberta com a própria família, sobre o que ainda deve e a quem. Quando as duas réguas e as duas contas se encontram no mesmo orçamento, o arranjo pode estar certo no papel e parecer injusto por dentro.

Essa injustiça raramente se apresenta como tal. Aparece como a culpa de gastar consigo o que os pais nunca puderam ter. Como a obrigação de mandar um dinheiro que ninguém pediu. Como a impressão de que o outro deve à casa algo que não aparece em planilha nenhuma. Ou como o incômodo com o meio a meio, ou com a falta dele, sem saber dizer por quê.

Antes de discutir quanto cada um põe, costuma valer a pena entender de onde vem a régua de cada um. Neste artigo quero te ajudar a perceber como:

  1. cada um traz de casa uma ideia do que é justo, e as duas raramente coincidem;
  2. o dinheiro do casal carrega contas antigas com a família de cada um, as chamadas lealdades invisíveis;
  3. cada arranjo realiza um tipo de justiça e deixa outro sem resposta;
  4. dá para conversar sobre isso sem transformar o casal num tribunal.

O que é justo, para cada um

Morton Deutsch, ao estudar como grupos decidem o que é uma divisão justa, descreveu três princípios que disputam esse lugar. A igualdade: cada um põe, ou recebe, o mesmo. A equidade: cada um recebe na medida do que deu; no dinheiro a dois, ela costuma aparecer pelo outro lado, com cada um pondo na medida do que tem. A necessidade: cada um recebe conforme precisa, independentemente do que pôs. Deutsch propôs que cada princípio tende a predominar num tipo de relação: a equidade onde o objetivo é produzir, a igualdade onde o objetivo é conviver bem, a necessidade onde o objetivo é cuidar.

Um casal é as três coisas ao mesmo tempo. Produz, porque sustenta uma casa. Convive, porque divide a vida. E cuida, porque um ampara o outro quando algo dá errado. Por isso a pergunta sobre o que é justo no dinheiro a dois costuma não ter uma resposta só, e cada pessoa tende a responder com a régua que aprendeu primeiro. Há quem tenha crescido numa casa em que tudo se dividia igual entre os irmãos; há quem tenha visto o que ganhava mais pagar mais, como coisa natural; há quem tenha aprendido que, numa família, quem precisa recebe, e não se faz conta.

Nessa leitura, justo, num casal, é o acordo em que cada um, medindo pela própria régua, reconhece o que dá e o que recebe.

Os arranjos do dinheiro a dois carregam essas réguas. A divisão de contas e o caixa comum com depósito igual tendem a realizar a igualdade. O proporcional à renda realiza a equidade. A necessidade quase nunca vira arranjo: aparece nas exceções, no mês em que um perde o emprego, adoece, ou tem a família precisando. Para ver as duas primeiras réguas lado a lado, com os números de vocês:

Quem paga quanto?

Coloquem os números de vocês — a conta acontece aqui na página, nada é enviado nem guardado.

Com as duas rendas e as despesas, os três modelos aparecem aqui — lado a lado.

O livro-razão de cada família

Ivan Boszormenyi-Nagy, ao trabalhar com famílias e com as dívidas que passam de uma geração a outra, descreveu as relações próximas como um livro-razão invisível: um registro que ninguém escreve e todos mantêm, do que cada um deu, recebeu, e ainda deve. Às obrigações que operam sem ser vistas nem ditas, ele chamou de lealdades invisíveis. Elas tendem a ser fortes justamente por isso: ninguém as combinou, e por isso não se sabe como encerrá-las.

No dinheiro, elas aparecem de muitos jeitos. A filha que viu os pais se sacrificarem sente, muitas vezes, que deve a eles uma parte de tudo o que conquista, antes de dever a si mesma. O filho que viu a família passar aperto pode sentir culpa ao gastar com conforto, como se ter mais fosse deixá-los para trás; é o que hoje se costuma chamar de lealdade à escassez. Quem aprendeu, em casa, que pedir era humilhação recusa ajuda, às vezes até a do próprio parceiro. Nos três casos, a conta começou antes do casal.

Quando essa conta e o compromisso com o casal disputam o mesmo dinheiro, a pessoa fica no meio, e o parceiro tende a sentir que vem depois. A terapia de família chama essa situação de conflito de lealdade. Ele dói dos dois lados: para quem está no meio, como a impressão de trair alguém qualquer que seja a escolha; para o parceiro, como a de competir com uma família inteira, sem chance de ganhar.

Os quatro arranjos, pela régua de cada um

Os quatro arranjos que mantêm um dinheiro de cada um e combinam o da casa, descritos um a um em Dinheiro do casal junto ou separado, realizam cada um uma justiça e deixam outra sem resposta. Na divisão de contas, o dinheiro de cada um é de cada um, e o que é da casa se divide conta a conta. Nas contas compartilhadas, durante o mês quem pode paga, e no fim um acerto devolve a cada um a sua parte, na proporção combinada. No caixa comum, cada um deposita um valor combinado numa conta da casa, que os dois administram juntos, e o que sobra é de cada um. No proporcional à renda, a mesma fatia do que cada um ganha vai para a casa, e para isso os dois precisam ser abertos sobre a renda.

Convido você a pensar em quatro cenas entre amigos ou em família, reparando na régua que cada pessoa trouxe de casa. Depois, pergunte qual delas se parece com a sua, e qual com a de quem está ao seu lado.

Cada um paga o seu: a divisão de contas

Uma das amigas aprendeu em casa que a conta é sempre de quem convidou. No jantar em que cada um pede o seu prato e paga o que consumiu, a noite é leve, e cada um sai sem dever nada. Ela paga o seu, sem reclamar, e volta para casa com a sensação de que ninguém convidou ninguém.

Para quem mede pela igualdade de responsabilidade, esse arranjo é um alívio: cada um responde pelo seu, e o que se dá ao outro é escolha, nunca cobrança. Ele também dá espaço às lealdades de cada um, porque quem sente que deve à própria família ajuda com o próprio dinheiro, sem precisar pedir licença.

Ficam sem resposta a equidade e a necessidade. Quando as rendas são diferentes, a mesma regra pesa diferente, e quando um dos dois está em apuro, o arranjo, por si, não tem o que oferecer. Para quem traz a régua do cuidado, isso pode ser sentido como frieza. E uma lealdade pesada pode crescer em silêncio, dentro do dinheiro de um só.

O jantar com a conta dividida: as contas compartilhadas

A conta do jantar chega e se divide por pessoa. O amigo para quem, na família, não se fazia conta entre os seus divide sem pensar. A amiga que aprendeu a contar cada moeda faz a conta de cabeça, percebe que pagou pelo vinho que não bebeu, e se cala.

O acerto mensal responde à amiga que conta: a regra é dita, a proporção é combinada, e ninguém paga pelo vinho que não bebeu sem ter concordado antes. Metade a metade, a proporção realiza a igualdade; sessenta e quarenta, a equidade. Para quem precisa de justiça explícita para confiar, conferir todo mês é uma forma de cuidado.

O que fica sem resposta é a necessidade, e com ela a régua do amigo que divide sem pensar. Para ele, o próprio acerto pode doer, qualquer que seja o resultado, porque contar entre os seus soa como desconfiança. Os dois têm razão, cada um pela sua régua. Quando nenhum dos dois a nomeia, a discussão costuma ficar presa no valor do mês.

A viagem com pacote: o caixa comum

Na viagem com pacote, todos depositaram o mesmo valor num pote, e agora está tudo pago: não é preciso abrir a carteira. Para quem acha que igual é justo, está tudo certo. A amiga que ganha a metade dos outros foi também: o mesmo depósito custou a ela o dobro, e não ir parecia pior do que pagar.

Com depósitos iguais, o pote mede pela igualdade no número, e isso costuma funcionar bem quando as rendas são parecidas. Quando não são, quem ganha menos carrega um peso que a régua da igualdade não registra.

No pote, o casal pode começar a escrever um livro-razão próprio, distinto do de cada família: o que entra ali é dos dois, e o que sai se combina. As lealdades de cada um ficam no que sobra a cada um, e é ali que o depósito igual volta a pesar: para quem ganha menos, sobra menos para a própria família, e a conta antiga aperta justamente quem tem menos folga.

O almoço de Natal: o proporcional à renda

É Natal, cada um leva um prato conforme pode, e a mesa fica farta. A filha que mais prosperou leva o peru, e leva também, sem que ninguém peça, o vinho, a sobremesa e a passagem da avó. Ela não saberia não levar.

Quem mede pela equidade costuma ver aqui a forma mais justa de dividir uma vida. O arranjo pede um jeito de lidar com o dinheiro que não contabiliza a quantidade: cada um oferece o que pode, e a casa recebe de cada um na sua medida.

Para quem mede pela igualdade, a mesma divisão pode parecer um peso injusto sobre quem ganha mais. E há uma lealdade que esse arranjo às vezes repete sem perceber: quem ganha mais no casal pode ser também quem, na própria família, sempre levou o peru. Nesse caso, a fatia maior na casa e a ajuda maior aos pais tendem a se somar, e a pessoa passa a carregar duas casas. Do outro lado, quem põe menos pode sentir que está sempre devendo, mesmo pondo tudo o que pode.

Conversar sobre justiça sem virar tribunal

A conversa sobre o que é justo costuma emperrar porque cada um defende um número, e cada número vem de uma régua que ninguém disse em voz alta. Alguns movimentos ajudam a trazer a conversa para a régua.

Dizer a régua em voz alta

Cada um, separado, responde como acha que deveriam ser divididas cinco situações, escolhendo entre três respostas: meio a meio, na medida de cada um, ou quem precisa recebe.

  1. O aluguel.
  2. O mercado do mês.
  3. Um presente caro para a família de um de vocês.
  4. Uma viagem dos dois.
  5. Um mês em que um de vocês perde a renda.

Depois, comparem. É comum que a mesma pessoa use réguas diferentes em situações diferentes, e isso é informação. As diferenças entre vocês mostram onde as réguas se chocam. O erro típico é discutir o número antes do princípio: a briga sobre quanto cada um põe no aluguel costuma ser, por baixo, uma briga entre igualdade e equidade.

A leitura do resultado aponta um de dois caminhos. Se as réguas de vocês coincidem e o arranjo não, talvez seja o arranjo que precisa mudar. Se as réguas divergem, qualquer arranjo tende a parecer injusto para um dos dois, e o trabalho passa a ser combinar qual régua vale para quê: por exemplo, a igualdade para a viagem e o lazer, a equidade para as contas da casa, a necessidade para as exceções.

Filho tem obrigação de ajudar os pais financeiramente?

Pela lei, há um dever. A Constituição prevê que os filhos maiores amparem os pais na velhice, na carência ou na doença, e o Código Civil estabelece que os alimentos entre pais e filhos são recíprocos, medidos pela necessidade de quem pede e pela possibilidade de quem paga. O que a lei não alcança é o resto: a ajuda que a pessoa sente que deve mesmo quando os pais não precisam, ou além do que ela pode dar. Esse resto costuma ser lealdade, e é ele que mais pesa no dinheiro de um casal, porque não tem medida nem fim.

Separar a dívida de hoje da dívida antiga

Para o dinheiro que vai para a família de cada um, duas perguntas esclarecem muito:

  • Isso responde a uma necessidade de agora, ou a uma conta antiga?
  • Se os meus pais não precisassem, eu mandaria mesmo assim?

As duas respostas são legítimas. A diferença é que a dívida de hoje tem tamanho e fim, e a antiga tende a não ter nenhum dos dois. Quando a resposta à segunda pergunta é sim, ajuda dar a essa ajuda um lugar próprio no orçamento, com nome e com teto, como o teto proposto em Ajudar os pais financeiramente; assim ela deixa de disputar com cada conta da casa.

O erro típico é usar as perguntas sobre a família do outro. Aí a conversa vira tribunal, e a resposta vem como defesa. Cada um responde sobre a própria família, em voz alta, e o outro escuta sem contestar; a discussão, se houver, fica para outro dia.

O reconhecimento também paga

Boszormenyi-Nagy dava peso a uma coisa que nenhuma planilha registra: no livro-razão de uma relação, reconhecer o que o outro deu é uma forma de equilibrar a conta. No dinheiro do casal, isso significa dizer em voz alta o que cada um contribui além do valor: o emprego que um aceitou pela família, a mudança de cidade, a renda que o outro deixou de ter.

O cuidado do lar é o exemplo mais claro. É contribuição em estado puro, aquilo que a equidade mandaria reconhecer na medida do que se deu, e é justamente o que menos aparece. Quando ele entra na conta, mesmo que só em palavras, a régua de quem cuida mais da casa passa a ser vista. Muitos conflitos sobre justiça baixam de tom quando essas contribuições são reconhecidas, mesmo que nenhum número mude. Uma forma simples de começar: uma vez por mês, cada um diz uma contribuição do outro que não aparece em reais.

A lealdade familiar costuma ser o ponto em que a conversa sobre justiça mais trava, porque quem está no meio defende, ao mesmo tempo, o casal e a própria história. Um terapeuta pode ajudar a pôr essa conta antiga sobre a mesa, onde os dois a vejam, e a decidir juntos quanto dela cabe na vida que dividem.

Se você quer transformar esta leitura em cuidado com a vida afetiva e financeira de vocês, o âmago propõe dois caminhos.


Este é o terceiro artigo de uma série que lê os arranjos do dinheiro a dois por lentes da terapia de casal e de família. Os anteriores trataram do quanto de "eu" e de "nós" cada arranjo carrega, e da fronteira do casal com a família de cada um. Os próximos tratam do que o dinheiro diz quando ninguém fala dele, e das fases da vida em que o arranjo precisa mudar.

Continue lendo

A série, na ordem em que se lê:

  • Como dividir as contas do casal: os arranjos lado a lado — o artigo central da série, com os arranjos lado a lado e como escolher (em breve)
  • Dinheiro do casal junto ou separado: o que muda na relação — o quanto de "eu" e de "nós" cada arranjo carrega, e a falta que ele tende a produzir
  • Ajudar os pais financeiramente: onde fica o limite do casal — a fronteira do casal com a família de cada um, e o que combinar antes do próximo pedido
  • Brigas por dinheiro no casamento: o que a briga está dizendo — o que cada gasto diz sobre a relação, e por que cada dinheiro tem uma marca (em breve)
  • Como organizar as finanças do casal em cada fase da vida — o arranjo como acordo de fase, e quando é hora de revê-lo (em breve)
  • Sintonia — o dinheiro de vocês, em acordo — o que a ferramenta torna visível: o dinheiro, o lar e a carga mental, lado a lado
  • Morton Deutsch, "Equity, Equality, and Need: What Determines Which Value Will Be Used as the Basis of Distributive Justice?". Onde aparecem os três princípios de justiça distributiva e as condições em que cada um tende a predominar. (Journal of Social Issues, v. 31, n. 3, p. 137–149, 1975.)
  • Ivan Boszormenyi-Nagy e Geraldine Spark, Invisible Loyalties. Onde nascem a ideia das lealdades invisíveis e a do livro-razão das relações familiares, entre gerações. (New York: Harper & Row, 1973.)
  • Ivan Boszormenyi-Nagy e Barbara Krasner, Between Give and Take. A exposição da terapia contextual pelo próprio autor, com o dar e receber e o lugar do reconhecimento na justiça entre as pessoas. (New York: Brunner/Mazel, 1986.)
  • Constituição Federal, art. 229, e Código Civil, arts. 1.694, § 1º, e 1.696. O dever de amparo dos filhos aos pais, a medida dos alimentos (a necessidade de quem pede e os recursos de quem paga) e a reciprocidade entre pais e filhos.