Quase toda briga por dinheiro no casamento é sobre outra coisa. O valor aparece primeiro, porque é o que dá para apontar: o tênis caro, a fatura do cartão, o presente para a família de um dos dois. Por baixo dele, a discussão costuma ser sobre o que aquele gasto disse a respeito da relação: quem decide, quem foi consultado, quem vale quanto, em quem se confia.
Por isso essas brigas tendem a se repetir com valores diferentes e o mesmo gosto. O extrato aberto na mesa como prova. O presente que deveria agradar e soou como cobrança. A compra escondida que pesou como traição, embora fosse pequena. E o silêncio sobre dinheiro, que às vezes diz mais do que qualquer conversa.
Entender o que a briga está dizendo costuma mudar o que vale a pena discutir. Neste artigo quero te ajudar a perceber como:
- toda conversa sobre dinheiro diz duas coisas ao mesmo tempo;
- o dinheiro de um casal não é todo igual, e cada um tem uma marca;
- cada arranjo diz algo sobre a relação, mesmo quando o casal não fala dele;
- dá para levar a briga para o lugar em que ela de fato acontece.
Toda conversa sobre dinheiro diz duas coisas
Paul Watzlawick, Janet Beavin e Don Jackson, ao estudar a comunicação dentro de famílias e casais, propuseram que toda mensagem tem dois níveis. Um é o conteúdo. O outro é a relação: o que a mensagem informa sobre quem fala, quem ouve, e o lugar de cada um. "Você gastou quatrocentos reais num tênis" é conteúdo. Sobre a relação, a mesma frase pode estar dizendo "você decide sem mim", "eu preciso conferir você" ou "o dinheiro é mais meu do que seu". É esse segundo nível que costuma machucar, e é ele que quase nunca é falado.
Nessa leitura, toda conversa sobre dinheiro diz duas coisas: quanto, e o que somos um para o outro. Quando o casal discute só o quanto, a briga pode terminar com o valor resolvido e o incômodo inteiro.
Os mesmos autores descreveram outro mecanismo útil: cada pessoa pontua a sequência de um jeito. Um conta "eu confiro tudo porque você gasta demais"; o outro, "eu gasto escondido porque você confere tudo". Os dois descrevem o mesmo ciclo, e cada um começa a contá-lo no ponto em que parece estar só reagindo ao outro. Enquanto cada um defender o próprio ponto de partida, o ciclo tende a continuar.
E há o silêncio. Não se pode não comunicar, escreveram eles: um casal que nunca fala de dinheiro também está comunicando alguma coisa, sobre medo, sobre vergonha, sobre quem manda. Esse silêncio raramente é neutro, e cada um dos dois costuma lê-lo de um jeito.
O dinheiro marcado
Viviana Zelizer, ao pesquisar como as pessoas usam o dinheiro na vida doméstica, nos presentes e na caridade, mostrou que o dinheiro, na prática, não é todo igual. As pessoas marcam o dinheiro conforme a origem e o destino: o salário, a herança da avó, o décimo terceiro, o dinheiro do presente, o que cada um tinha antes do casamento. Cada marca carrega uma regra não escrita sobre o que se pode fazer com ele.
Num casal, as marcas raramente coincidem. Para um, a herança é dinheiro da família e não deveria pagar a conta de luz, porque carrega uma dívida com quem a deixou, assunto de lealdade familiar e dinheiro; para o outro, dinheiro é dinheiro, e a conta está atrasada. Para um, o décimo terceiro é a reserva intocável; para o outro, é a viagem do ano. Usar um dinheiro para o que ele não era pode ser sentido como uma pequena profanação, mesmo quando a conta fecha.
Quando a esposa ganha mais que o marido
Uma das marcas mais fortes é a de quem sustenta a casa. Em muitas famílias ela foi aprendida como papel: o homem provê, a mulher complementa. Quando a renda da mulher passa a ser a maior, o que o número significa pode mudar mais do que aquilo que ele paga. Para alguns homens, ganhar menos soa como perder um lugar. Para algumas mulheres, ganhar mais traz o cuidado de não parecer que manda, ou a solidão de sustentar a casa sem que isso seja visto.
O extrato não mostra nada disso. Costuma ajudar separar duas coisas em voz alta: o que a renda de cada um paga, e o que cada um imaginava que a própria renda significaria. A primeira é conta; a segunda é história, e pede conversa sem pressa. Há casais em que a mulher ganha mais por anos, sem conflito, porque os dois combinaram o que isso quer dizer para eles.
O que cada arranjo diz
Os quatro arranjos que mantêm um dinheiro de cada um e combinam o da casa, descritos um a um em Dinheiro do casal junto ou separado, também falam. Na divisão de contas, o dinheiro de cada um é de cada um, e o que é da casa se divide conta a conta. Nas contas compartilhadas, durante o mês quem pode paga, e no fim um acerto devolve a cada um a sua parte, na proporção combinada. No caixa comum, cada um deposita um valor combinado numa conta da casa, que os dois administram juntos, e o que sobra é de cada um. No proporcional à renda, a mesma fatia do que cada um ganha vai para a casa, com a renda dos dois aberta ao outro.
Cada arranjo afirma alguma coisa sobre a relação, de propósito, e pode ser ouvido afirmando outra. Convido você a pensar em quatro cenas entre amigos ou em família em que um gesto de dinheiro falou sozinho. Repare no que é bom ali e no que constrange. Depois, pergunte o que o arranjo de vocês está dizendo, e o que cada um está ouvindo.
Cada um paga o seu: a divisão de contas
Dois amigos de infância se reencontram depois de anos, e a noite é boa. Na hora da conta, um deles pede, por hábito, para pagar separado. O outro passa o caminho de volta pensando no que aquilo quis dizer.
Somos dois inteiros, e cada um responde pelo seu: para quem escolhe dividir as contas, isso é respeito. A relação existe porque os dois querem estar nela, e o dinheiro não prende ninguém a ninguém. O risco está em quem ouve outra coisa, uma distância, como se misturar as vidas fosse algo a evitar. Aí a sensação costuma ser a de estar sempre um pouco do lado de fora, mesmo dentro de casa.
O jantar com a conta dividida: as contas compartilhadas
A noite foi animada, todos pediram à vontade, e a conta chega para ser dividida por pessoa. Uma amiga pede, com delicadeza, para tirar do seu valor a sobremesa que não comeu. São poucos reais, e ela tem razão. Mesmo assim, por um instante, a conversa para.
O acerto do fim do mês repete que aqui o combinado se cumpre. Para quem confia mais quando o combinado é dito e cumprido, pouca coisa tranquiliza tanto. A mesma conferência, porém, pode chegar ao outro como vigilância. Quem ouve assim tende a viver o acerto como uma pequena prova mensal, e quem confere tende a não entender por que algo tão justo machuca.
A viagem com pacote: o caixa comum
No último dia da viagem paga com o pote, sobra um pouco de dinheiro. Um dos amigos sugere usá-lo num passeio que só ele quer fazer. A viagem foi leve, e o grupo concorda. Mas fica no ar a pergunta: o pote é do grupo, ou de quem fala mais alto?
Um pote com o depósito dos dois declara um nós concreto: temos uma casa. Mesmo bem administrado, ele cobra um preço próprio. Cada diferença de jeito entre os dois, o supermercado e a faxina, guardar e gastar, vira conversa, e o que antes era escolha de um passa a pedir acordo. Isso pode ser ouvido como precisar de licença para o que parecia seu. E, quando um dos dois passa a decidir mais sem que isso tenha sido combinado, o pote pode começar a dizer quem pode e quem pede.
O almoço de Natal: o proporcional à renda
A tia que sempre levou o peru chega este ano com o arroz, e o almoço é bom como sempre. À mesa, o assunto não vem à tona. Mas todo mundo entende que alguma coisa mudou na vida dela.
"Cada um dá o que pode, e isso basta": para quem escolhe o proporcional, é a medida mais justa de uma vida dividida. Com a renda aberta, porém, cada mudança no que alguém põe na casa vira notícia, mesmo sem palavras. O que pode ser ouvido é que o lugar de cada um acompanha a renda: quem põe menos tende a se sentir medido por ela, e quem põe mais, cobrado.
Levar a briga para onde ela acontece
Quando o marido controla o dinheiro da esposa
Antes de qualquer conversa, uma distinção. Um arranjo, mesmo o que nunca foi conversado, pode ser revisto pelos dois. Controle é quando um decide sozinho sobre o dinheiro do outro: retém o salário ou os documentos, exige prestação de contas de cada centavo, impede o outro de ter dinheiro próprio. Pode partir de qualquer um dos dois. No Brasil, a Lei Maria da Penha reconhece como violência patrimonial a retenção, a subtração ou a destruição de bens, valores, documentos e recursos econômicos da mulher, inclusive os destinados às suas necessidades. Quando o dinheiro passou a servir para controlar, conversar sobre arranjos e traduzir brigas supõe uma liberdade que ali falta, e o primeiro passo é buscar apoio. A Central de Atendimento à Mulher atende pelo telefone 180, de graça e a qualquer hora; em risco imediato, o número é o 190.
Traduzir a última briga
Quando o casal briga por dinheiro, o ponto de partida mais útil costuma ser a última discussão. Cada um, separado, escreve duas frases sobre ela: a do valor ("você gastou tanto em tal coisa") e a da relação ("quando isso aconteceu, eu senti que…"). Depois, troquem só a segunda.
Conta como resposta, na segunda frase, uma sensação dita na primeira pessoa: senti que não fui consultado, senti que precisava pedir licença, senti que você não confia em mim. O erro típico é escrever ali uma acusação disfarçada, como "senti que você é irresponsável"; aí a frase volta a ser conteúdo, e a briga recomeça. Se a frase da relação de um surpreender o outro, a conversa achou o lugar certo.
Depois da troca, cada um responde à frase do outro antes de voltar ao valor, devolvendo o que entendeu e o que gostaria que o outro soubesse daquele momento. Com a frase da relação respondida, o valor muitas vezes se resolve em minutos, porque deixou de carregar o resto.
Vale também olhar a pontuação: cada um conta em que momento a última briga começou. Se os dois pontos de partida forem diferentes, e costumam ser, o ciclo ficou visível, e a pergunta muda de quem começou para como sair dele.
A frase do arranjo de vocês
Cada um completa, sozinho, duas frases: "o nosso arranjo diz que…" e "às vezes eu ouço nele que…". Conta como resposta uma frase sobre a relação, como "somos dois inteiros" ou "a casa é dos dois". O erro típico é descrever o mecanismo ("dividimos meio a meio"), que é o conteúdo de novo. Comparem as respostas: quando o que um quis dizer e o que o outro ouve não coincidem, é ali que o arranjo está falando por vocês.
Combinar as marcas
Listem juntos os dinheiros que têm marca para algum de vocês: a herança, o décimo terceiro, um presente em dinheiro, o que um trazia de antes, a renda extra de um trabalho específico. Para cada dinheiro, cada um fala para que acha que ele serve. Onde as respostas coincidem, está resolvido. Onde divergem, vale combinar antes de usar: por exemplo, a herança fica com quem herdou, e parte dela vai para a reserva da casa se essa pessoa quiser; o décimo terceiro se divide entre a viagem e o que cada um quiser; o presente em dinheiro é de quem o recebeu. Se uma divergência não se resolve, ela pode esperar: deixar aquele dinheiro parado, por um tempo, costuma custar menos do que usá-lo contra a marca de um dos dois.
Quando falar de dinheiro é tabu
Se falar de dinheiro é tabu entre vocês, uma conversa curta e marcada rende mais do que uma longa e rara: vinte minutos, uma vez por mês, sobre o mês que passou e o que vem. A primeira tende a ser desconfortável, justamente porque tira o dinheiro do silêncio; com algumas repetições, vira parte da rotina. O erro típico é a conversa do mês virar prestação de contas de um ao outro. Ela é dos dois sobre a casa, e cada um fala do que quiser falar sobre o próprio dinheiro.
Brigas que voltam com valores diferentes e o mesmo gosto costumam estar presas no segundo nível, o da relação. É ali que um terapeuta pode ajudar o casal: a traduzir o que cada gasto está dizendo, e a escolher o que os dois querem dizer um ao outro com o dinheiro.
Se você quer transformar esta leitura em cuidado com a vida afetiva e financeira de vocês, o âmago propõe dois caminhos.
Este é o quarto artigo de uma série que lê os arranjos do dinheiro a dois por lentes da terapia de casal e de família. Os anteriores trataram do quanto de "eu" e de "nós" cada arranjo carrega, da fronteira do casal com a família de cada um, e do que cada um sente como justo. O próximo trata das fases da vida em que o arranjo precisa mudar.
Continue lendo
A série, na ordem em que se lê:
- Como dividir as contas do casal: os arranjos lado a lado — o artigo central da série, com os arranjos lado a lado e como escolher (em breve)
- Dinheiro do casal junto ou separado: o que muda na relação — o quanto de "eu" e de "nós" cada arranjo carrega, e a falta que ele tende a produzir
- Ajudar os pais financeiramente: onde fica o limite do casal — a fronteira do casal com a família de cada um, e o que combinar antes do próximo pedido
- Lealdade familiar e dinheiro: o que é justo para o casal — de onde vem o que cada um sente como justo, e o que ainda acha que deve à própria família
- Como organizar as finanças do casal em cada fase da vida — o arranjo como acordo de fase, e quando é hora de revê-lo (em breve)
- Sintonia — o dinheiro de vocês, em acordo — o que a ferramenta torna visível: o dinheiro, o lar e a carga mental, lado a lado
Em diálogo
- Paul Watzlawick, Janet Beavin e Don Jackson, Pragmatics of Human Communication. Onde aparecem os níveis de conteúdo e de relação de toda mensagem, a pontuação da sequência e a ideia de que não se pode não comunicar. (New York: W. W. Norton, 1967.)
- Viviana Zelizer, The Social Meaning of Money. A pesquisa sobre como as pessoas marcam o dinheiro conforme a origem e o destino, na casa, nos presentes e na caridade. (New York: Basic Books, 1994.)
- Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), art. 7º, IV. A definição de violência patrimonial.